Imigrantes geram uma nova cena cultural em São Paulo

19th novembro 2016   ·   0 Comments

Seja na música ou na literatura, os imigrantes que vêm para São Paulo estão deixando diversas contribuições culturais que agora estão sendo registradas

Maior metrópole da América do Sul, São Paulo é reconhecida por abrigar diversos eventos culturais durante todo o ano. De festivais de música latina ao ano novo chinês, a cidade constrói na sua identidade características cosmopolitas que abriga culturas de todos os continentes. A imigração na região sempre foi um tema constante: desde o passado, com a chegada dos europeus e asiáticos, até hoje, com a vinda dos imigrantes contemporâneos, sejam eles refugiados ou não. Todo esse fluxo, portanto, gera um impacto cultural na cidade que, agora, vem sendo registrado virtualmente pelo coletivo Visto Permanente.

Intervenção artística de imigrantes durante o Fórum Social Mundial das Migrações em São Paulo

Intervenção artística de imigrantes durante o Fórum Social Mundial das Migrações em São Paulo

Foto: Reprodução/Facebook

“Quando a gente foi percebendo que tinha uma profusão de produção cultural gigante de imigrantes na cidade de São Paulo durante o ano de 2014, nos interessou criar uma videoteca que funcionasse como se fosse um mapeamento das festividades. São mais de 50 registros, mas a gente tem uma base de dados com mais de 150 artistas ou grupos de artistas”, conta Cristina De Branco, uma das fundadoras do projeto. Totalmente virtual, o Visto Permanente utiliza as redes sociais não só como um difusor de informação sobre esta cena cultural, mas também como uma forma de dialogar com as comunidades imigrantes na cidade. “O acervo deveria ser mesmo digital e de acesso fácil ao público. É uma forma de construir uma memória partilhada”, comenta De Branco.

Nascida em Portugal e com a mãe brasileira, De Branco afirma que os espaços físicos para os imigrantes mostrarem o seu trabalho ainda são escassos. “Comunidades imigrantes italianas são sempre muito bem vindas, mas boliviano, paraguaio, congolês nem tanto”, afirma. Para ela, São Paulo ainda não está totalmente aberta para receber essa produção. “A cidade ainda está muito cega em relação às comunidades imigrantes e o mesmo se reflete no circuito cultural e artístico”.

Da feira da Kantuta – onde bolivianos celebram sua cultura semanalmente – aos atores refugiados que encenam sua realidade, os imigrantes têm trazido um pouco dos seus países para São Paulo de forma permanente. “Eles não obrigatoriamente precisam fazer aquela atuação gigante no espaço público, mas eles fazem. A gente pode receber muito de São Paulo, mas também dar muito à cidade”, completa.

A carreira de uma artista imigrante

Victoria Saavedra é colombiana e mora no Brasil há sete anos. Estudante de música latino-americana, veio para São Paulo entrar em contato com a cultura brasileira e tentar incrementar as brasilidades em sua música. “No começo foi bem difícil porque São Paulo é gigante, mas depois foi ótimo”, conta. Com um financiamento coletivo para lançar seu próximo trabalho autoral, Saavedra conseguiu o apoio de 150 pessoas, entre elas, 125 brasileiros. “Foi emocionante ver isso”, comenta.

Dentro do circuito cultural de São Paulo, a cantora afirma que nos últimos três anos tem percebido um crescimento da produção cultural imigrante na cidade, mas que ainda há muitas barreiras para serem superadas. “É difícil como artista achar bares legais para trabalhar. Há algumas complicações, como determinados documentos que dificultam o nosso trabalho. A burocracia no Brasil é um pouco bagunçada”, analisa. Sem o visto permanente, a artista tem que renovar periodicamente a sua estadia no país e isso a impede de tirar o seu certificado do Microempreendedor Individual (MEI), que ajudaria na construção de sua carreira. “O Brasil ainda está aprendendo e a gente também vai se adaptando”, comenta.

Para o próximo ano, tirar o visto permanente é uma de suas metas certeiras. Além disso, a cantora fará o lançamento do seu disco, “Remanso entre Raízes”. “Estou procurando produtor e mais um time para apoiar o trabalho. Não estou com planos de ir embora agora, vou esperar para ver o que me aguarda”, completa.

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